O Vasco da Gama vai enfrentar o Boca Juniors no Maracanã, na terça-feira, pela volta da semifinal da Copa Sul-Americana. Com ingressos esgotados desde o início da semana, a confirmação do local só veio depois de uma disputa jurídica que atravessou instâncias da Justiça fluminense e chegou ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, envolvendo ainda a Polícia Militar, o Ministério Público e o Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Na quinta-feira, o ministro Luis Felipe Salomão, presidente do STJ, não conheceu o pedido do Consórcio Fla-Flu para suspender a decisão liminar do Tribunal de Justiça do Rio que havia garantido a partida no Maracanã, encerrando - ao menos por ora - a tentativa de Flamengo e Fluminense de impedir o jogo no estádio que administram.
A negativa inicial e a disputa pelo gramado
O imbróglio começou quando o Vasco foi barrado no Maracanã e o Consórcio Fla-Flu passou a sustentar a indisponibilidade do estádio com base em pareceres técnicos sobre o estado do gramado. Foram apresentados quatro documentos: um da engenheira agrônoma Maristela Kuhn, de 29 de julho, e três da empresa Greenleaf, de 18 de agosto, 3 e 30 de setembro - este último produzido três dias depois da partida entre Dallas Cowboys e Baltimore Ravens, pela NFL, realizada no próprio estádio. Os relatórios recomendavam "restringir ao máximo o uso do gramado" e prever "intervalos maiores entre os jogos" para permitir a recuperação da superfície.
Diante da recusa, o Consórcio consultou a Polícia Militar sobre a viabilidade de transferir o confronto para o Nilton Santos, no Engenhão, data inicialmente prevista para o dia 20. A resposta do Bepe, batalhão especializado da PM em estádios, apontou "inadequação" de São Januário para o jogo, mas recomendou o Maracanã como palco ideal - e, paralelamente, reconheceu que o Nilton Santos também reunia condições de sediar a partida.
Vasco tenta São Januário e apresenta plano de segurança
Em meio ao impasse, o Vasco insistiu na possibilidade de mandar o jogo em São Januário e enviou ao Secretário de Estado de Polícia Militar um documento de 62 páginas pedindo reavaliação. O clube propôs medidas como:
- Divisão da arquibancada lateral entre torcedores vascaínos e argentinos, ampliando a capacidade para visitantes de cerca de mil para 4 mil pessoas, com separação por estrutura metálica de 2,1 metros de altura;
- Contratação do triplo de segurança privada, com cadastro de caravanas argentinas, identificação de veículos e passageiros e orientação bilíngue ao público;
- Estacionamento de até 80 ônibus de torcedores do Boca no Terreirão do Samba, com controle total do Vasco sobre recepção, deslocamento em ondas e escoamento pós-jogo.
O comandante do Bepe, contudo, manteve posição desfavorável, citando "limitações estruturais e territoriais do estádio" e dúvidas sobre a capacidade real de processamento e evacuação do contingente visitante, além da ausência de margem de segurança para eventuais imprevistos.
Judiciário e Ministério Público entram na disputa
O caso ganhou contornos institucionais quando seis promotores do Ministério Público assinaram recomendação para que o jogo fosse disputado no Maracanã. Na sequência, o Procurador-Geral de Justiça oficiou o Governador Ricardo Couto sugerindo "intervenção" para garantir a partida no estádio administrado pelo Consórcio Fla-Flu, argumentando que a responsabilidade pela segurança pública também recai sobre a concessionária do equipamento.
No campo judicial, o desembargador Alexandre de Carvalho Mesquita, da 23ª Câmara de Direito Privado do TJ-RJ, chegou a indeferir pedido do Vasco para jogar no Maracanã. Dias depois, porém, o cenário se inverteu: a primeira vice-presidente do tribunal, desembargadora Suely Lopes Magalhães, derrubou liminar anterior que retirava o jogo do estádio, e o desembargador Joaquim Domingos de Almeida Neto, em nova decisão, deu razão ao Vasco e liberou definitivamente o Maracanã para o confronto.
Governo pede solução consensual e STJ encerra a disputa
Antes da decisão final, o próprio Governador do Estado havia respondido ao Procurador-Geral de Justiça defendendo que a controvérsia fosse resolvida por "mecanismos processuais de instrução probatória", incluindo perícia técnica, sem descartar uma "solução consensual" pautada no interesse público sobre o uso do Complexo Maracanã. A chefe de gabinete da Secretaria de Polícia Militar, coronel Andréia Ferreira da Silva Campos, chegou a comunicar ao CEO do Maracanã, Fred Nantes, posicionamento favorável ao uso do Nilton Santos como alternativa, mas a decisão final coube ao Judiciário.
Com o indeferimento do pedido do Consórcio Fla-Flu pelo ministro Salomão no STJ, o confronto está confirmado no Maracanã. Vasco e Boca Juniors decidem na terça-feira uma vaga na final da Copa Sul-Americana, em um Maracanã lotado e que, antes da bola rolar, já foi palco de uma das disputas de bastidor mais intensas do futebol brasileiro recente.